Favelas perdem vegetação e avançam sobre áreas sujeitas a inundações
Por Vitória Virgínia
A expansão das favelas brasileiras ocorreu à custa de áreas verdes e avançou sobre terrenos sujeitos a riscos ambientais. Em 40 anos, a área urbanizada dessas comunidades aumentou 150%, passando de 60,2 mil hectares, em 1985, para 151,7 mil hectares, em 2025. No mesmo intervalo, 77,6% dos territórios perderam pelo menos 10% da vegetação. O cenário é constatado por um levantamento do MapBiomas divulgado ontem, Dia Nacional das Favelas.
O crescimento foi superior ao registrado nas demais áreas urbanas do país. Enquanto a ocupação em favelas avançou 150%, a urbanização brasileira aumentou 132% — de 1,9 milhão para 4,4 milhões de hectares. A diferença também aparece no ritmo de expansão: embora o crescimento das cidades esteja desacelerando, as comunidades continuam avançando.
Segundo Julio Cesar Pedrassoli, coordenador do tema Urbano no MapBiomas, a redução da velocidade de expansão não ocorre na mesma proporção entre os diferentes territórios. "As favelas ainda crescem mais rápido do que as áreas urbanizadas fora delas", afirma.
O avanço da construção também modificou a paisagem dessas localidades. A disponibilidade de vegetação dentro dos perímetros urbanizados caiu aproximadamente 34% no período analisado. Em 1985, havia 0,060 hectare de cobertura vegetal para cada hectare construído. Quatro décadas depois, a proporção recuou para 0,040 hectare.
Fora das favelas, a tendência foi inversa: a disponibilidade de áreas verdes aumentou cerca de 10%. Os números mostram que a população dessas comunidades convive com uma presença proporcionalmente menor de vegetação, elemento importante para amenizar as temperaturas e reduzir os efeitos de eventos climáticos.
O levantamento identificou 12,3 mil favelas distribuídas por 651 municípios. Desse total, 9.895 já apresentavam alguma área urbanizada em 1985. Entre as comunidades que existiam naquele ano, 42,4% pelo menos dobraram de tamanho até 2025. Mais de 60% da área urbanizada atualmente nesses territórios surgiu depois do início da série histórica.
Outro aspecto relevante é a forma como ocorreu essa ocupação. Nas favelas, 54% da expansão avançou sobre áreas naturais. No restante do país, a principal origem da urbanização foi a conversão de pastagens, responsável por 38% da área incorporada às cidades. Em números absolutos, a transformação de vegetação natural em espaços urbanizados alcançou 49,5 mil hectares nas comunidades e 866,8 mil hectares nas demais áreas.
Para Julio Cesar Pedrassoli, os resultados reforçam a necessidade de incluir as favelas no planejamento urbano e nas políticas de adaptação às mudanças climáticas. A combinação entre ocupação acelerada, supressão de vegetação e localização em terrenos vulneráveis exige atenção do poder público para reduzir os riscos enfrentados pelos moradores.
Região Norte
A Região Norte concentra 27,9% de toda a área urbanizada em favelas, embora responda por apenas 9,4% da urbanização nacional. Manaus ocupa a primeira posição em extensão, com 10,5 mil hectares distribuídos por 235 comunidades.
No Distrito Federal, estão as três maiores favelas do país: 26 de Setembro, Sol Nascente e Morro da Cruz. Juntas, ocupam 25,6 km², conforme o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Sol Nascente também aparece entre as maiores comunidades brasileiras em número de moradores. Com aproximadamente 71 mil habitantes, ocupa a segunda posição nacional, atrás apenas da Rocinha, no Rio de Janeiro, que reúne 72 mil pessoas. Paraisópolis, em São Paulo, aparece em terceiro lugar, com 58 mil moradores.
A redução da vegetação tem consequências que ultrapassam a transformação da paisagem. Em áreas urbanas com até 10% de cobertura vegetal, a diferença média de temperatura da superfície chega a 5°C durante o verão. Nos locais com 80% de vegetação, o indicador cai para 1,1°C.
Em aproximadamente um quarto dos setores censitários urbanos analisados, a superfície das áreas construídas apresenta temperatura mais de 7°C superior à das regiões não urbanizadas do entorno. A diferença média nacional é de 2,73°C. Os indicadores consideram a temperatura da superfície, medida por satélite, e não a temperatura do ar.
A vulnerabilidade também aparece na ocupação de terrenos suscetíveis a desastres. Entre 1985 e 2025, a extensão urbanizada de favelas situadas em regiões com alta probabilidade de inundações aumentou 117%. A média anual passou de 3.741 hectares, no intervalo de 1985 a 1989, para 8.111 hectares entre 2020 e 2025. O Pará concentra a maior extensão de comunidades em regiões com suscetibilidade muito alta a inundações, com 2.059 hectares.
A análise também identificou mudanças na distribuição da iluminação artificial. Entre 2013 e 2025, a área com luz noturna detectável por satélite aumentou 37% no Brasil, um acréscimo de 1,7 milhão de hectares. O avanço foi 2,5 vezes mais rápido do que o crescimento da área urbanizada. O Sudeste concentra 40% da área iluminada identificada no território nacional, apesar de representar 11% da extensão do país.