PF cria laboratório com tecnologia de ponta para rastrear ouro ilegal
Por Vitória Virgínia
O cerco contra o comércio clandestino de metais preciosos no Brasil ganha uma barreira científica inédita. A Polícia Federal colocou em operação, na capital federal, uma unidade pericial avançada capaz de mapear a assinatura química e isotópica de jazidas minerais espalhadas pelo país.
Com essa estrutura sediada no Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília, os investigadores conseguem cruzar os componentes moleculares de lotes apreendidos com um banco de dados geológicos. A tecnologia revela com precisão milimétrica a mina de onde o minério foi extraído, desmontando fraudes fiscais e documentais em flagrantes de lavagem de bens.
Ciência contra fraudes fiscais
A extração predatória de recursos naturais costuma ser mascarada por papéis e notas fiscais que indicam áreas devidamente licenciadas. Ao examinar a composição de cada fragmento, a perícia contrapõe os dados declarados pelos comerciantes com a verdadeira procedência do carregamento.
O perito criminal federal e gerente do Programa Ouro Alvo, Gustavo Caminoto Geiser, explicou a motivação prática por trás do projeto científico.
“Começamos a realizar pesquisas periciais para verificar a autenticidade da documentação que acompanha o ouro e identificamos a necessidade de aprimorar a capacidade da Polícia Federal para comprovar os crimes de lavagem de ouro e outros delitos relacionados”, afirmou.
Além de fornecer provas judiciais contra quadrilhas que atuam na Amazônia Legal, o mecanismo protege o mercado formal. Empresas que compram o insumo com certificação ganham respaldo técnico para demonstrar conformidade socioambiental em cadeias de suprimento internacionais.
Investimentos do Fundo Amazônia
A montagem do espaço e a compra de maquinário especializado contaram com R$ 49,7 milhões do Fundo Amazônia, quantia gerida pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social sob coordenação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
O aporte faz parte de uma estratégia mais ampla, o Plano Amazônia: Segurança e Soberania, iniciativa do Ministério da Justiça e Segurança Pública que dispõe de R$ 318,5 milhões. O plano integra operações ostensivas e de inteligência entre a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, a Força Nacional e corporações estaduais de segurança nos nove estados da região amazônica.
O laboratório conta com aparelhagem voltada para a caracterização atômica, detecção de contaminação por mercúrio e armazenamento seguro de amostras brutas. O acervo servirá como um banco de dados permanente da geologia nacional, usado continuamente em laudos periciais criminais.