Brasil tem 63,9 milhões de adultos sem educação básica completa
Por Paula Soares
Contingente até caiu, mas 51% dessa queda se deve à morte de pessoas mais velhas que nunca tiveram acesso à escola.
O Brasil tem 63,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que interromperam os estudos sem concluir a educação básica (ensino fundamental + ensino médio), o que representa 37,3% da população nessa faixa etária.
Do total, 44,7 milhões não terminaram o ensino fundamental e 19,3 milhões não concluíram o ensino médio. A Educação de Jovens e Adultos (EJA), principal caminho para esse público, alcança apenas 1,5% da demanda potencial, segundo levantamento da Rede EJA e Inclusão Produtiva.
Pessoas pretas e pardas formam 63,9% desse grupo (enquanto representam 55,5% da população brasileira, segundo o Censo 2022) e concentram 76,8% das matrículas na EJA.
O relatório “População de 15+ fora da escola, demanda potencial por EJA e transições para o trabalho”, divulgado pela Folha, foi elaborado com participação das fundações Roberto Marinho, Bradesco, Itaú e Arymax, em cooperação com a Unesco e apoio técnico do Iesp-Uerj. Ele reúne dados da Pnad Contínua 2025 (IBGE), do Censo Escolar 2024 e do Censo Demográfico 2022.
Redução veio mais da mortalidade do que da escolarização
O contingente sem educação básica completa caiu 16% entre 2012 e 2025. Porém, 51% dessa queda se deve à morte de pessoas mais velhas que nunca tiveram acesso à escola. O restante se explica por quem conseguiu concluir os estudos: 23% no ensino regular, 8% na EJA e 17% por outras vias.
Silvana Oliveira, superintendente do Itaú Educação e Trabalho e uma das responsáveis pelo estudo, defende mudanças estruturais: “Não basta abrir mais vagas. A escola precisa caber na vida do estudante. É necessário oferecer currículos flexíveis, diferentes formatos de organização, horários compatíveis com a jornada de trabalho e políticas de permanência”.
Impacto econômico e social
A baixa escolaridade está associada a menores rendimentos e maior pobreza. A renda domiciliar mensal por pessoa no grupo sem educação básica completa é de R$ 1.427 — cerca de 51,4% da renda de quem concluiu essa etapa (R$ 2.777). A taxa de pobreza é 1,8 vez maior nesse grupo.
Entre os ocupados sem ensino fundamental completo, apenas 38,4% têm emprego formal, contra 65% daqueles com ensino médio completo.
Em uma simulação, se 32,5 milhões de pessoas (cerca de metade do público potencial da EJA) concluíssem a educação básica, o país teria um ganho estimado de R$ 66 bilhões por ano em renda do trabalho — o equivalente a 0,6% do PIB. Desse total, R$ 43 bilhões viriam de aumentos salariais de quem já trabalha e R$ 23 bilhões da entrada de novas pessoas no mercado.
Perfil e barreiras por gênero e idade
Entre homens que não concluíram os anos iniciais do fundamental, 48,4% têm 60 anos ou mais; entre as mulheres na mesma situação, a proporção sobe para 61,2%. Já no grupo com ensino médio incompleto, a maior concentração está entre adultos de 30 a 49 anos.
As razões para o abandono e as dificuldades de retorno também diferem por gênero:
Entre homens de 15 a 29 anos, o trabalho foi o motivo de abandono para 53,9% e o principal obstáculo para voltar para 61,7%.
Entre mulheres da mesma faixa etária, as responsabilidades familiares dificultam o retorno para 34,9%, e a gravidez foi citada como motivo de abandono por 22,9%.
O diagnóstico reforça que o envelhecimento da população está “resolvendo” parte da estatística por mortalidade, enquanto a capacidade de escolarizar adultos em idade produtiva permanece limitada — exigindo políticas mais flexíveis e conectadas à realidade de trabalho e família.